Janeiro, período de chuvas, todo o ano a mesma cena se repete: enchentes, deslizamentos, soterramentos, pessoas sem casa para morar e muitas mortes.
A causa apontada por especialistas é sempre a mesma: A ocupação irregular das encostas e várzeas dos rios.
Como solução, ano após ano, as autoridades repetem o mesmo discurso; reconhecem a falta de controle sobre a ocupação do solo e dizem que estão fazendo o possível para conter os estragos, parece que as providências param por aí.
Afinal, o que é necessário fazer para que esses eventos deixem de ter destaque nos jornais em todo início de ano?
Para saber mais sobre o assunto, que por sinal deu muito o que falar nos últimos dias, a Rádio Novo Tempo entrevistou o professor da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e sócio da MMBB Arquitetura, Milton Braga.
Rádio NT – Como as enchentes acontecem? Qual a principal causa da tragédia?
Milton Braga – As enchentes acontecem por que a drenagem urbana vem sendo feita de um modo muito improvisado no Brasil, quase nunca como um problema dominante e sempre como um problema resolvido a reboque de outros problemas como o desenvolvimento urbano e a especulação imobiliária, obras diárias que tem retorno de curto prazo e grande interesse eleitoral que ao longo prazo não organizam a cidade, e se essas obras de drenagem forem bem feitas as enchentes não deverão ocorrer.
“As enchentes acontecem por que a drenagem urbana vem sendo feita de um modo muito improvisado no Brasil, quase nunca como um problema dominante e sempre como um problema resolvido a reboque de outros problemas.”
Milton Braga.
RNT - O que a defesa civil pode fazer?
MB– A primeira coisa quem um planejamento da drenagem urbana deverá fazer é tirar as pessoas das áreas de risco, por que algumas áreas sempre serão inundadas ou inundáveis que são justamente as várzeas dos rios. O Brasil tendeu a construir o seu sistema de circulação principal acompanhando as águas, isso é uma coisa que se repete em várias cidades, por que é onde a topografia é mais favorável, são onde os perfis dos terrenos já são próximos daqueles que são adequados a circulação. Com a ocupação desordenada vão ser sempre áreas problemáticas. Então a primeira coisa seria tirar a ocupação das áreas de risco, tanto avenidas de fundo de vale onde a cidade formal se organiza quanto a ocupação informal como a ocupação informal dos que ainda não foram urbanizados, mas que foram invadidos por uma ocupação descontrolada.
RNT – Em relação as tragédias urbanas: a causa faz parte do desconhecimento, ignorância ou cinismo?
MB- Mais do cinismo da sociedade em geral, autoridades, sociedade civil que tem influência que acabam deixando esse problema que é dramático e urgente como um problema a ser resolvido um dia. O Brasil tem sempre privilegiado as obras que são eleitoreiras que trazem voto de imediato assim como as obras que dão lucro rápido. Então não e só das autoridades publicas, é da sociedade em geral o cinismo com que faz que ocorram essas tragédias.
RNT – O controle do solo está sendo feito?
MB- Não, por que o crescimento das cidades brasileiras é descontrolado. Agora passou a ser menos descontrolado, pois a taxa de crescimento urbano diminuiu muito, tanto diminuiu o crescimento da população quanto diminuiu a migração de pessoas do meio rural para o meio urbano. Mas nos últimos 30, 40 anos o crescimento das cidades foi vertiginoso, e daí não é só um problema técnico, mas um problema estrutural, o erro teria sido crescer nessas taxas.
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